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uma longa história

24
Set19

um dia stressante

Saí do trabalho às dez e pouco da manhã. Quase quase a chegar a casa deparei-me com um cachorrinho de porte médio, castanho cor de caramelo. Ele estava à porta de uma loja (loja essa que lhe fechou a porta) e muito, muito magro. Um senhor estava perto dele a falar com ele, enquanto ele abanava o rabinho. Achei que fossem amigos, companheiros, por isso fui para casa. Mas o meu coração estava apertado.

O meu namorado não estava... mas estava a chegar. Contei-lhe e pedi-lhe que pelo caminho o procurasse, só para me certificar que ele estava bem. Porque era nisso que eu queria acreditar, mas esta minha intuição não deixava. Ele não o encontrou, então fui ter com ele na tentativa de o acharmos em conjunto. Não foi preciso muito. Rapidamente demos com ele, novamente a tentar entrar numa loja que automaticamente lhe fechou a porta. Assustado, perdido, magro. Observamos um pouco e ele foi por-se na entrada de um prédio. Fomos ter com ele, esperando que ele não estivesse suficientemente traumatizado para ter medo de nós. Um doce. Um doce de cão. Simpático, cheirou-me e abanou o rabinho. Tinha olhos castanhos cor de mel... olhinhos de amor que me olhavam como se soubessem que ali estava uma amiga. Eram dez e meia da manhã e eu só tinha comido metade de um pão com queijo. Mas não tinha fome... não conseguia sequer sentir fome. Tudo o que eu sentia, físico ou não, estava concentrado no meu coração... apertado, esmagado. Chorei... chorei muito enquanto me abraçava àquele lindo ser. Chorei alto, chorei com lágrimas pesadas que me caíam pela face. Chorei sem me importar se as pessoas viam ou não. Chorei com o meu namorado abraçado a mim a tentar acalmar-me. Chorei porque não aguento ver maldade com quem não se sabe defender, porque não aguento ver tamanha filha da putice, tamanha falta de carater, tamanha falta de humanidade neste mundo.

Muita gente apareceu e foi seguindo. Uns paravam e tinham pena, outros paravam e cagavam... porque aquilo era "simplesmente" um cão. Muitos chegaram mesmo a criticar tanta atenção, dizendo e passo a citar "se fosse um ser humano não davam tanta atenção". Claro que não, há seres humanos desprezíveis que não merecem amor. Uma senhora passou e ficou sentida com a situação. Foi comprar-lhe uma latinha de patê, latinha essa que ele devorou como se não houvesse amanhã. O meu namorado foi comprar mais duas... devorou-as num piscar de olhos. Fome... ele tinha fome. E sede, porque quando outra senhora lhe deu água, bebeu praticamente garrafa de litro e meio.

Depois de quase uma hora tentamos ligar para tudo que era lado... números impedidos, ou então não atendiam. Ligamos para o último recurso: PSP. Apareceram dez minutos depois dois agentes... frios, como a maioria é. A PSP ligou para a Casa de Animais de Lisboa, que apareceu meia hora depois. Viram o cachorro, não tinha microchip. Viram-lhe os dentes, disseram que talvez tivesse um aninho. Mas de seguida foram-se embora, sem o levarem, porque segundo os próprios para o levarem tinham de ter autorização do chefe, e o chefe só vinha às duas e meia. Era praticamente uma hora e meia da tarde. Toda a gente havia dispersado... algumas pessoas paravam e achavam triste a situação... a senhora que lhe comprou comida não saiu de lá. Nós... nós ficamos, do início ao fim.

Não contentes com a situação, porque por lei eles tinham de levar o cãozinho, ficamos à espera que batesse duas e meia para que nos dessem notícias. Os dois polícias foram trocados por apenas um, mais velho mas menos frio. Esse senhor ficou perto de nós (ao contrário dos outros dois) e do cãozinho, fazendo-lhe festinhas e sorrindo para ele de vez em quando.

Pouco antes das duas, e porque queria estar lá quando a Casa dos Animais de Lisboa chegasse, fui a casa passear a minha cadela e aproveitei para levar ração e água para o cãozinho. Quando cheguei perto dele, ainda não havia notícias. Ao seu redor já só estavam três pessoas: o meu namorado, a senhora que não saiu e o agente da polícia. Dei-lhe ração, ração essa que ele devorou num instante! Tive de ir buscar mais. Fez cocó, fez xixi, brincou comigo e chorou... muito.

O tempo passou... duas e meia, nada. Chegou às três da tarde e ligamos para a Casa dos Animais de Lisboa, onde nos foi dito que não tinham nada para verificar (ou seja, não tinham de dar nenhuma ordem porque não havia lá nenhum caso a ser resolvido) e nós só pensavamos que aqueles gajos estavam a gozar connosco, porque eles tinham estado ali! Lá disseram à polícia que tinham duas emergências e tinham de ir socorrer, o que significava que não tinham hora para vir buscar este cãozinho, mas que ainda hoje viriam. Isto podia demorar uma hora, como duas ou cinco ou dez. Nós decidimos: dali não saiamos.

Depois de muito aperto da minha mãe, que chegou mesmo a discutir com eles por telefone, e de uma senhora que ajudou IMENSO IMENSO IMENSO para que tudo se resolvesse, lá vieram. Eram três e quarenta quando levaram o cãozinho, que para mim se chamava Migo (porque ele era muito amigo e já o considerava meu amiguinho). Os senhores vieram com o rabinho entre as pernas, pudera, foram apertados como deve ser! Se não tivessemos feito nada, eles não iriam querer saber. Chegaram mesmo a dizer à minha mãe que procurassemos uma instituição! O que me leva a crer que esta gente anda aqui só por causa dos fundos... e não por causa dos animais.

O Migo foi embora... Doeu-me tanto vê-lo ir. Principalmente porque quem o levou foi um brutamontes qualquer.

Agora estou aqui, a perguntar-me se o Migo está bem. Se o Migo comeu, se está quente, se está confortável. Se já fez amigos, ou uma namorada quem sabe, ou se foi bem tratado. Estou aqui, desesperada, com lágrimas a quererem fugir-me, preocupada com o Migo e a querer acreditar que o fofinho vai ser bem tratado. Por Deus, que seja!

 

Nunca, mas nunca mesmo me vou calar quando se tratar de alguém que não tem como se defender! Nunca vou olhar e fingir que não vi, como muita gente faz. Por favor, se estás a ler isto, nunca o faças também. Peço, de humano para humano, que tornes este mundo melhor levantando a voz em defesa de quem não a tem!

 

ps. uma senhora ficou comovida e chorou, enquanto lamentava não o poder levar para casa. Disse também que não lhe queria tirar fotos, porque "não me quero lembrar, só quero esquecer"

Mas eu não esqueço... nem deixo esquecer. Por isso aqui está uma foto do Migo, para que vocês também não se esqueçam dele, nem dos restantes Migos que infelizmente há por aí!

 

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o estaminé

criado em agosto de 2019. no início chamava-se "ser de verdade", porém a pseudo autora decidiu que "uma longa história" assentava melhor, já que a sua vida era, de facto, uma longa história. aqui encontras pensamentos, desabafos, traumas, experiências, opiniões e um quê - mas só mesmo um quê - de idiotice

quem escreve

mariana ⋅ 23 anos ⋅ rainha do mau feitio ⋅ ex-nómada pelo mundo da blogosfera ⋅ apaixonada por escrita mas com sérios problemas em se expressar

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